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Miro-a indecisa; mesmo assim, atrevo-me na minha dúvida, e aproveito o momento, porque... porque... não sei. Já não sei mais por que hei de aproveitar — tudo se mistura, o cavaleiro, o ar, o silêncio, o peito inflado, o repique da verdade, a verdade que não cessa, que corre atrás de nós com uma faca, e em nosso desespero — por um momento, sinto medo da polícia vir atrás de nós — eu corro na frente, da polícia, mas também corro antes que qualquer verdade me pegue, pois não sei... não sei o que ela quer. E se a polícia me pegar não quero estar com a verdade no bolso. Mas é inútil isso tudo, é claro; uma força franca me alcança pela nuca, entra como se ali houvesse um pequeno orifício e disparata-se direto para a língua, da qual salta:
“Mas e a vergonha?”, digo, insegura, arriscando-me.
“Que vergonha?”, ela diz. Não parece consumida sequer.
“Você falou que as mulheres se agarram ao único poder...”, logro dizer numa respiração só.
“Ah, sim, claro. Mulheres detém o poder de ter filhos — é o que elas fazem que os homens não fazem.”
“Não é disso que falo”, pressiono.
“Faca de dois gumes... Se agarrar nisso é ser definida por isso. Depois disso, é ladeira abaixo, não sabemos ser mais nada.”
“Hum”, pressiono de outra forma.
“Como se a única criação fosse só essa?” Ela sabe que já disse isso. Fito-a. Meus olhos cravados.
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(trecho do livro "A Criação da Não-Mãe")