UM ENSAIO METAFÍSICO

O DESTRUIDOR CHEGOU?
Ana Karina Luna


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Eu assistia o podcast POD SAVE AMERICA e ouvi um comentário que se alinhou com o meu entendimento astrológico do momento. No trecho abaixo, um dos participantes fala do momento político em seu país, os Estados Unidos:


“Estamos enfrentando um movimento autoritário em nosso país e quando você luta contra um movimento autoritário o instinto é defender a democracia, mas se estamos sempre na posição de defender instituições democráticas que a maioria das pessoas neste país não acha que estão funcionando para elas, então isso não vai funcionar, e então seremos os defensores de um sistema quebrado, e D.T. e seu pessoal serão os que vão querer queimá-lo. Deveríamos, pelo menos, ser o partido que não quer queimar o sistema, mas quer consertá-lo e quer reformá-lo.”


Para que vocês entendem a relação que vi entre esse comentário e a vitória de D.T. nos EUA eu preciso, primeiro, explicar porque a Astrologia serve para analisar esse momento e também desconfundir Astrologia com o horóscopo mundano que se vê nos jornais e revistas.

Astrologia é um campo analítico de pesquisa (semelhante à Psicanálise) que envolve ler, estudar, entender e analisar a linguagem simbólica e seus padrões de acordo com o movimento do cosmos. Já o horóscopo é, de várias, uma ferramenta pertencente à Astrologia —, assim, o horóscopo é apenas a leitura do céu do momento, seja em um nível mais superficial ou mais profundo, dependendo de quão rápido, detalhado ou sutil se queira ser.

Portanto, Astrologia é o processo de ler uma linguagem e analisar seu conteúdo. A partir disso, várias possibilidades de previsão podem ser acessadas, ou não, como em qualquer campo. Mas a ideia crucial é aprofundar o conhecimento de um momento numa linha do tempo para entender todas as forças em jogo ali, permitindo entender melhor e mais amplamente eventos, fatos, interações e situações.

Nos últimos anos, a Astrologia, junto com algumas outras áreas de pesquisa, tem lido padrões que sugerem o fim de uma era. Os astrólogos notaram que o tipo de alinhamento celeste que existe agora (entre Netuno, Urano e Plutão, e eu devo acrescentar Saturno e Júpiter também) nunca foi exatamente visto antes.

Hoje em dia, os astrólogos têm à disposição excelente tecnologia que os permite ver os movimentos do céu muitos anos dentro do passado e compará-los com os respectivos fatos históricos naquele momento. O trabalho de alguém que estuda linhas do tempo (sejam elas de astrologia do mundo ou de astrologia de pessoas), ou seja, um astrólogo, tem algumas semelhanças com o de um historiador —, a diferença, na minha opinião, a astrologia pode analisar a história com mais profundidade e dimensão, porque se utiliza de uma gama mais vasta de símbolos e arquétipos disponíveis. O astrólogo, então, pode se beneficiar disso para ver relacionamentos e significados mais complexos em qualquer evento dado, uma vez que esses símbolos e arquétipos podem trazer mais informações para a análise da vida mundana e individual.

É por isso que a Astrologia é meio que conhecida como a psicologia do passado. Mas eu diria até que a Astrologia viaja por várias disciplinas, como Psicologia, Astronomia, História (memória), Filosofia, Linguística e provavelmente mais, dependendo de cada astrólogo, já que, assim como o código (programação) e o Jazz, a Astrologia é um sistema aberto que acolhe novas descobertas e significados para si, resultantes do uso diário — e então, basicamente, a Astrologia é um tipo único de ciência (já que contribuições vindas de pesquisas têm, sim, espaço dentro dela), e especialmente porque admite os reinos do inconsciente, e isso bem antes da psicanálise.

Assim, hoje em dia, é possível ver como era o céu há 2, 3, 4, talvez 10 mil anos. Até agora, o que foi visto é que não houve um alinhamento do tipo atual no céu (e acima mencionei apenas os nomes dos principais arquétipos/planetas envolvidos) desde cerca de 6 mil anos atrás, de acordo com o astrólogo uraniano Gary Christen. Curiosamente, isso seria entre 3.000 A.C., por volta do fim da era Neolítica. Bem, ali no final do Neolítico foi quando todas as principais civilizações antigas surgiram — na Mesopotâmia, Egito, vale do Indo e China —, e junto com elas, os primeiros sistemas de escrita (o cuneiformes dos Sumérios e os hieróglifos egípcios). Hoje já sabemos que a maneira e a quantidade de informação que pode ser disseminada pode facilitar o crescimento de grupos — de pequenas tribos para grupos maiores. Sincronicamente, um livro que aparece neste nosso momento é “Nexus: Uma Breve História das Redes de Informação da Idade da Pedra até IA”. A Idade da Pedra durou 3,5 milhões de anos e terminou exatamente por volta de 4.000 - 2.000 A.C.; naquele momento havia também um alinhamento celeste semelhante ao desenho de um berço ou de uma cesta entre Netuno, Urano e Plutão, como temos agora. Parece que, naquela época, estávamos mudando nossas “ferramentas”: de pedra para letras escritas? Então, a maneira como as coisas estão configuradas no céu, nesse momento atual, indica uma mudança de era, uma mudança de paradigma, um novo humano, uma nova terra e, definitivamente, um novo conjunto de valores. E também pode ter algo a ver com novos sistemas de informação chegando. E para isso, novas formas de governar e de se organizar podem ser necessárias.

A propósito, não é a Astrologia que faz as coisas acontecerem. A Astrologia é uma linguagem, e o astrólogo apenas a lê e a partir daí, analisa narrativas possíveis. Como os eventos acontecem não é do controle de uma só pessoa. Assim, eles acontecem de acordo com o livre arbítrio de cada um e do coletivo, incluindo eventos nas dimensões não-humanas. Mas, através dos alinhamentos no céu, podemos ver certos potenciais para certas narrativas. Isso pode ser útil com previsões, direção, preparação, obviamente, mas especialmente é útil para adquirir conhecimento mais profundo sobre uma situação ou uma pessoa. Isso não significa que análises erradas não possam acontecer. Mas não é apenas a Astrologia que usa leitura, análise e conclusão como uma ferramenta, praticamente todas as outras disciplinas fazem isso também, e erros e acertos acontecem lá também (todos os tipos de ciência, medicina, advocacia, religiões etc.). Só que a Astrologia lida com a física quântica e isso ainda sendo massivamente desconhecido, assim, fica parecendo que a Astrologia não tem uma explicação para o seu funcionamento.

E falando em alinhamentos, um fato curioso: a jornalista Kristen Welker, do Meet the Press, se referiu algumas vezes ao resultado das eleições recentes como um realinhamento (na vitória de D.T.).

Dito isso, a Astrologia tem falado que se estamos em um momento de morte de uma era e nascimento de uma nova era, então, há uma transição que envolve a queda de um sistema ultrapassado para que outro seja construído. Para ser direta: a quebra de um sistema, a morte dele. O problema é que o sistema — como qualquer sistema — é rígido: e ele tende a querer ficar como está.

Este é, então, de certa forma, um momento de morte. E mortes não são travessias fáceis. Sim, eu sei, queremos o novo, queremos o melhor, queremos as melhorias, mas sempre esquecemos que algo precisa perecer para abrir espaço para a novidade que está por vir. Na maioria das vezes, como humanos — e especialmente como humanos ocidentais — somos incapazes de ver quando um evento desgraçado pode ser uma parte do desmoronamento necessário em um processo que é semelhante à experiência da Fênix.


“Não vamos romantizar: o verdadeiro crescimento é um processo de destruição.”
    – Nata Sin


Alguns dirão: oh, você está sendo romântica. Ou: oh, por favor, não de novo com todo esse tema de morte-como-boa e renascimento-como-melhor. Bem, vou deixar seus pensamentos para a sua própria reflexão, pois este, até agora, é o único método pelo qual observei as coisas se transformando, e obviamente não sou a única. Esta sabedoria é ancestral. Até uma borboleta sabe.

Tendo isso em mente, foi por isso que achei o comentário do podcast acima bem interessante.

O que ele diz fez sentido para mim: é possível que estejamos defendendo um sistema (democracia) que está, em sua essência, podre?

Ou seja: vale a pena manter o que estamos defendendo? Já foi dito muitas vezes que nossa democracia não é realmente uma democracia — e sei que muitos de nós já pensaram sobre isso, nada de novo até aqui. Portanto, se não é uma democracia verdadeira em que vivemos, se se tornou um sistema confuso, onde seus principais valores foram mal-usados, invertidos, corrompidos e, depois, pintados para que pareça que funciona bem — e para piorar, nós mesmos temos sido ensinados a sempre justificá-lo assim: “mas não há outro sistema melhor...”, o que termina agindo como um impedimento para a criação de novos sistemas — então... poderíamos nos permitir a ponderar que, se esse sistema não permite novas criações, pois está podre, talvez ele realmente precise ser quebrado mesmo — ou melhor, precisaria “se autodestruir”? (Digo autodestruir porque... quem vota? A própria população, sim? E foi ela mesma quem escolheu o tal presidente do qual falo aqui. Tudo bem, sem saber, mas o inconsciente age sempre na direçao da integração, mesmo que isso signifique um desintegrar para depois reintegrar). Você já pensou nessa possibilidade? Que se quisermos progredir, realmente, ter um sistema funcionante, o antigo sistema pode precisar ser quebrado? Isto é, se admitirmos como aceitável a narrativa astrológica de que uma nova era está a ponto de chegar.

Um padrão astrológico interessante da narrativa desta nova era parece ser que o sistema atual não pode ser recuperado. Os padrões (astrológicos e visíveis) de destruição são gritantes — mas tenha em mente que isso não precisa significar destruição total, mas destruição de algo, ou coisas, ou destruição de um tipo de visão de mundo, para o nascimento de um novo paradigma.

Há indicações (novamente, astrológicas e visíveis) de que o sistema atual está fraturado: ele quebrou, rachou como uma taça de vinho de cristal ou uma janela de vidro. Temos mantido essa “janela” no lugar com fita adesiva, e a taça de vinho de cristal está trincada e tem se mantido unida por nada mais além de si mesma, mas sua estrutura foi comprometida. É uma questão de tempo até que realmente se estilhace. Sabemos que não há conserto para vidro quebrado, não pode ser melhorado; eventualmente, tem que ser substituído.

Como bruxa (e artista), vou arriscar um pouco o meu pescoço e me permitir um pensamento maluco: poderia ser que, num certo sentido, como um vilão, ou como uma “força da natureza” (e eu odeio dizer isso), D.T. (e não Kamala) está a ponto de quebrar o que precisa ser quebrado?

Ele já está, há algum tempo, quebrando tudo o que é sagrado para nós. Ou assim parece, certo?

Então, voltando ao comentário do podcast, eu só discordo da última parte em que ele diz que a democracia talvez possa ser salva: não, eu não acredito que a democracia possa ser reformada ou consertada. Não esta. Não nenhuma no mundo. Talvez porque ela tenha sido construída com valores que não podemos dar conta de sustentar: sabemos que vivemos em uma civilização hipócrita; nem sempre fazemos o que dizemos — e é por isso que precisamos ter constituições ainda, porque senão... cai tudo.

Ainda não existe uma ética amplamente difundida no mundo, em geral, e a totalidade de nossas palavras não vale muito. Como podemos ter uma democracia ética se ainda nem nós mesmos chegamos lá?* E como construir uma? Como sabemos quando uma coisa precisa ser construída do zero ou ainda pode ser consertada?

* No final deste ensaio, coloquei algumas fontes e citações. Uma delas é uma entrevista onde a filósofa Marilena Chauí é questionada: “Temos vivido em uma democracia?” Ela responde que não porque uma democracia política exigiria uma sociedade democrática, o que, segundo ela, ainda não temos —, curioso é que ela responde a isso de forma apologética, com medo de que as pessoas pensem que ela está sendo pessimista. Se até mesmo um filósofo se sente desconfortável com esse assunto espinhoso, isso nos informa que falar sobre nossas democracias fracassadas é um tabu. Especialmente porque depositamos muitos sonhos nela, e por isso repetimos para nós mesmos “não critiquem porque não há nada melhor ainda”. Parece que o momento de fazer as contas chegou e estamos com dificuldade de enxergar algo muito doloroso, embora real.

Se você está achando este texto horrível demais para digerir, deixe-me dizer, caso você ainda não tenha notado: minha intenção não é espalhar medo ou fim-de-mundo, muito pelo contrário. Uma astróloga que admiro, Luludy, diz que a Astrologia pode aconselhar e quem foi aconselhado, está por dentro. Aconselhar pode significar propor outro ângulo (como a psicanálise bem sabe): e se houver algum sentido no resultado da eleição? (embora possa não parecer). Declaração ousada, eu sei. Peço paciência pela ousadia e com os clichês. Mas e se a gente não estiver conseguindo ver muito bem porque estamos olhando apenas para a superfície da coisa? Processos complexos, especialmente coletivos, têm marcos que nem sempre são claros à época em que acontecem. Estranhamente, o céu astrológico atual mostra algo semelhante a um canal vaginal, por mais intensa que essa imagem possa ser — o parto envolve dor do ponto de vista da mãe, mas o que frequentemente esquecemos de visualizar é a experiência da criança que está vindo: ela vê um canal escuro e estreito no qual, em lugar nenhum, diz “vida do outro lado”. Ela não sabe onde isso vai dar, mas seu instinto sabe que só há um caminho: através. Nós nos sentimos como essa criança agora, mas esquecemos que somos também, ao mesmo tempo, a mãe. Somos ambas, e pelos próximos 2 a 3 anos, mas especialmente em 2025, daremos à luz E nasceremos simultaneamente. (Especialmente para os EUA, que vive o seu retorno de Plutão, há todo um tema de destruição e renascimento ocorrendo, pois Plutão é o planeta que destrói o que não mais serve para que algo novo seja construído ou nascido no lugar).

Atualmente, os padrões que os astrólogos veem apontam para tempos em que sistemas tóxicos, prejudiciais, não holísticos e quebrados devem ser destruídos, especialmente sistemas que se dizem “democráticos” sem sê-lo autenticamente — pois especialmente tudo que envolve mentira, como corrupção e hipocrisia, parece ser o alvo da destruição — e uma das nossas provas mais óbvias que nossas democracias são inautênticas é que a maioria das pessoas dificilmente tem voz (daí nosso sentimento constante de impotência, revolta e desgosto com tais sistemas corruptos), ao mesmo tempo em que dinheiro, grandes corporações e poder que vem do topo e sem limites são “a voz” em segundo plano que nos confunde e parece uma melodia democrática.

Pense nisso: não é isso mesmo o que tem sido revelado agora e já por um tempo? Toda a lama e absurdo a que temos assistido ultimamente, e que lentamente vem atingindo uma febre alta há alguns anos. Vários tipos de pseudo-democracias se revelando em todo o mundo. Podemos concordar aqui que essas são as nossas realidades?

Será verdade que a realidade atual precisa ser colapsada? A realidade atual parece ser um “pós-capitalismo”, não sei bem, mas sei que nossas democracias estão esfareladas, e no fundo, vivemos em uma monarquia-império de lucro, ganância e dinheiro, do qual somos súditos, e talvez aqui e ali alguém nos deixa ser pseudo-reis por um dia, ou por cinco minutos. Mas se essas democracias esfareladas funcionam de uma forma que conseguem convencer a todos nós de que funcionam muito bem, e no entanto... em suas entranhas o inferno reina solto, como muitos membros das nossas sociedades sabem porque vivem isso diariamente; então, talvez eu tenha que tomar uma taça de vinho mais tarde para que eu possa ser devidamente auxiliada a chegar à conclusão de que, talvez, o comentário do podcast acima diga mais até do que o criador dele poderia ter pretendido: seria essa pseudo-democracia o que precisa ser quebrado? A própria democracia precisa ser colapsada?

À luz disso — e depois do primeiro gole de vinho tinto português, e depois de agradecer à deusa que eu vivo em um pedaço da matrix onde posso ter uma garrafa dessas em casa — sim, podemos precisar de alguém como D.T. para destruí-la.

(Pausa.)

(Um pensamento positivo é necessário: concentre-se no seguinte: depois disso, ou ao mesmo tempo, nós mesmos construiremos algo novo. Então, sim, talvez seja hora de palco para uma outra Kamala.)

Se essa narrativa é ou pode ser verdadeira — e não precisa ser, é apenas uma análise, uma leitura, é apenas uma conversa boba de bruxa — então, agora, agorinha mesmo, alguém precisa fazer o trabalho sujo — e sinceramente, quem quer fazer?

Eu sei, eu sei, tudo nisso soa clichê. Deixe soar. Ignore minha escrita ruim. Apenas, por um segundo, seja indulgente com essa linha de pensamento. Foque nessa possível linha de tempo, nessa possível timeline do D.T. como o destruidor do que precisa colapsar.

Obviamente, não estou aqui para defender D.T. — que a deusa me salve disso! Mas como escritora, sei muito bem que vilões existem em todas as histórias, e se não existirem, geralmente não é uma boa história; não é real, não é crível. E um escritor precisa saber como usá-los, o que fazer com um vilão. Evidentemente, D.T. não está fazendo isso por boas intenções, como um anti-herói. Ou talvez esteja, mas deduzo que não, pois não acredito que esteja fazendo-o consciente, porque o trabalho justamente requer inconsciência, por razões óbvias — já que é difícil destruir algo e ao mesmo tempo ter boas intenções para com o mesmo — e isso é provado no provérbio “o caminho para o inferno é pavimentado de boas intenções”. (Se algo constrói um inferno, não são boas intenções, certo? O provérbio apenas revela que as pessoas geralmente não têm consciência das suas verdadeiras intenções.)

“Boas intenções” inconscientes podem muitas vezes ser uma ótima ferramenta para construir o inferno, e por mais louco que pareça — assumindo que todo o simbolismo no céu astrológico está aqui sendo corretamente lido e analisado —, poderia ser que através da natureza destrutiva desse homem idoso, branco e bronzeado artificialmente, um sistema pode finalmente ser destruído? (Oh, a ironia, o patriarca sacaneando com o patriarcado ele mesmo. Nem todo homem, mas sempre um homem... é, tinha que ser assim.)

Esses trabalhos bizarros... é para isso que servem os vilões.

Sim, Kamala tentaria reformar o sistema ou consertá-lo, mas... e se isso não for o necessário nesse momento? Nesse fim de Kali Uga e começo de Era Dourada?

Qualquer astrólogo sério hoje pode ver vários padrões coincidentes indicando que este sistema humano atual não pode ser melhorado nem consertado. Ele está entrando em colapso (pois outro já está sendo construído simultaneamente). É um salto. Um salto para outro nível. O antigo sistema precisa ser exaurido. Achatado. (A palavra que aparece constantemente na boca dos astrólogos é estilhaçado). Como isso vai acontecer? Há muitas maneiras, e não pode ser controlado, porque é a vida; o colapso só pode ser assistido se se quiser vivê-lo em tempo real, se tentar controlá-lo é comido por ele. Assistamos.

Mais uma vez, a bruxa em mim quer falar: ela aprendeu que nada acontece “por engano”, simplesmente porque o universo, a criação, o cosmos são amorais (nem moral, nem imoral), como é a boa Astrologia. Como é o bom jazz. Como é a boa arte. Como é a vboa poesia. O que é, é; todo clichê é verdadeiro, por mais infernal que pareça. Na verdade, essa maneira de pensar tem sua própria área de estudo: a Fenomenologia nos diz que o que é nos informa sobre a narrativa que acontece por trás disso, momento a momento. Ao olhar clara e lucidamente para o que é, podemos ter uma boa noção do que está acontecendo. Se tivermos sorte de conseguirmos ser claros e lúcidos.

Em uma postagem anterior, eu disse que, para mim, Kamala atuava como uma Kali — ou assim eu pensava. Kali é, na mitologia hindu, uma faceta do feminino que atua como uma deusa destruidora; quando ela aparece é para destruir algo que só através da destruição, da morte, pode ser lidado. Eu imaginei que Kamala atuaria ela mesma o destroçamento e a quebra do capitalismo, do materialismo, das grandes corporações, do patriarcado e desse infeliz sistema corrupto e mentiroso que criamos nessa longa trajetória humana. Posso ter entendido errado o protagonista, mas a Astrologia, até agora, ainda acerta o feito. Olhando daqui e de agora, depois do resultado dessas eleições, tudo faz muito sentido: não poderia ser Kamala fazendo o trabalho sujo — se me permitem ficar espantada mais uma vez: oh, a ironia total... poderia ser que aquele que o construiu, irá destruí-lo? O próprio masculino.

A travessia deste portal não será tão bonita — a menos que você seja um pouco escorpiônico — e muita tristeza e decepção, e até mesmo uma reverência sombria se apresentarão. Mas tenha em mente que essa travessia será acompanhada de alívio progressivo, pois não apenas as formas de trabalho da verdade são semelhantes às de um desentupidor (um desentupidor traz alívio, embora não seja um trabalho lá tão limpo de se fazer), mas também porque além desse portal, os padrões astrológicos mostram tempos vindouros profundamente criativos e inovadores, como um tipo bem nosso de Renascença oportuna: a Era Dourada (pois a Kali Uga, os 6.000 anos de descida e ignorânci acabou em 21/3/2025) Mas adivinhe? Se toda essa conversa de bruxa for verdade, não é Kamala que atuará como Kali, é? Ela é muito virtuosa para tal façanha.

Vamos esperar para ver que tipo de aurora toma posse quando (se) o 20 de janeiro vir a ser.


poster 2


Maceió, 7 novembro 2024.


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ALGUMAS OUTRAS CITAÇÕES (que se alinham com a ideia de um sistema que não funciona):

MARILENA CHAUÍ, FILÓSOFA, EM ENTREVISTA (TV Brasil):

P: A Direita tem se vendido como revolucionária e vendido a Esquerda como reformista, a senhora pode comentar sobre isso?

R: “Eu não ponho em dúvida que a esquerda brasileira e a esquerda mundo afora se tornaram reformista, gerenciando os escombros do capitalismo; e o fato de que a política que nós conhecíamos não existe mais, ela tem que ser reinventada. E a política, no caso da esquerda, estava fundada na noção de classe social e de produção econômica. Então, a perda desse referencial exige que a esquerda pense tudo de novo, coisa que, no momento, ela não está fazendo. Agora, a direita é “revolucionária” no sentido em que ela se apropriou de toda a mudança tecnológica e transformou essa mudança tecnológica em instrumento dela. Só que, como é que ela fez isso? Ela fez isso de várias maneiras: o gerenciamento da guerra, por exemplo. Mas entre outras coisas ela fez isso através do chamado partido digital, e através do Fake News. E o que é o Fake News? Do ponto de vista público e político, ele é aquilo que o filósofo Theodor Adorno chamou de cinismo. O que é o cinismo? O cinismo é a deliberação de mentir, onde a mentira não é algo que acontece sem querer. É a deliberação de mentir e fazer da mentira a forma de governar. Então, a forma do exercício do poder, é isso que é o Fake News. O Fake News é o cinismo levado ao seu ponto extremo. Então, não dá para você considerar que a direita seja revolucionária apenas por ela produzir e se apropriar dessas novas tecnologias. Ela, então, não é revolucionária porque o modo que ela tem de se apropriar é o cinismo, é através da deliberação de produzir o discurso do ódio, o discurso da guerra, e o discurso da mentira. Então, você pode dizer: ela é tecnologicamente avançada e a esquerda não acompanhou isso. Eu concordo com você. Mas a direita se apropriou de um instrumento que foi produzido por ela mesma. Então, a mutação tecnológica é produzida por ela a serviço dela, e todo o trabalho da esquerda seria de desfazer isso. E como a esquerda está numa posição reformista ela não desfaz isso, ela tenta consertar isso, mas não tem conserto.

Fonte: https://youtu.be/qIiBXRG4JAw?si=y1j0kYpRoKhFoYuI&t=1858 (turn on auto-translate subtitles)


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JON STEWART SOBRE “A VITÓRIA DE D.T. E O QUE VEM A SEGUIR” com Heather Cox Richardson (The Weekly Show):

SOBRE “A ECONOMIA RUIM” COMO JUSTIFICATIVA (para o resultado das eleições):

“Criou-se uma realidade emocional, mas há uma dica ali, e é isso: olhando objetivamente para os marcadores da economia em termos de PIB ou salários ou infraestrutura, investimento e todas essas coisas e vemos os EUA como sendo a inveja do mundo. Nosso país agora está prosperando de uma forma que outros países não estão. Mas se na sua casa, você ainda assim, sente dificuldades, então pode ser uma sensação de que talvez o sistema que estamos vendendo para as pessoas não pareça mais válido para elas? Em outras palavras, se olhamos para o nosso sistema econômico e dizemos que ele está prosperando, mas as pessoas não sentem isso, é como se elas dissessem: “bem, talvez o próprio sistema não esteja servindo da maneira que precisamos”, então, quando os Democratas dizem que isso o que fazem é para proteger o sistema, a população pensa: “por que eu protegeria algo que não está me servindo mais?”, mesmo quando está funcionando corretamente.”

Fonte: https://youtu.be/D7cKOaBdFWo?si=aJqoegt0V0o1lqVm&t=500


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O SISTEMA DEMOCRÁTICO ESTÁ FUNCIONANDO PARA TODOS?

“Você tocou no ponto crucial de tudo o que esta eleição falou [...] que é um sentimento de que a democracia americana não responde mais às necessidades de seu povo. Para mim, isso, então, significa que D.T. é um sintoma de uma corrupção muito mais profunda no sistema democrático que precisa ser abordada porque, se não for, seremos para sempre mais vulneráveis a esses tipos de demagogos ou a esse tipo de disrupção. Então, a questão se torna: pode-se ter mesmo um sistema que funcione para 320 milhões de pessoas? a propósito, um grupo diverso de pessoas, e essas linhas de classe, gênero e raça sempre estarão presentes. Acho que os Republicanos decidiram o seguinte: acho que vou tentar escolher coalizões de classe para nos levar à nossa linha de chegada, mas quando você olha para isso, como você, então, cria um sistema onde a democracia parece mais resiliente, responsiva e ágil e não tão vulnerável a isso?”

Fonte: https://youtu.be/D7cKOaBdFWo?si=0ibqohhr46RMPZ6G&t=1776


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USANDO O SISTEMA DEMOCRÁTICO PARA ENTREGAR SOLUÇÕES NÃO DEMOCRÁTICAS::
(Ou: a democracia ainda é viável se for usada para entregar mentiras? Heather Cox Richardson acredita que as pessoas que votaram em D.T. pensaram que estavam votando por princípios democráticos. As notícias falsas sobre “a economia ruim” também se encaixam aqui.

“Em 2016, eu realmente senti que isso foi um soco no estômago, de certa forma, porque parecia um fato consumado que os Democratas iriam vencer, você se sentiria bem com isso, havia coisas que talvez você não gostasse em termos de política, mas você se sentia bem, então parecia uma anomalia [quando os Democratas perderam]. Agora, isso parece diferente porque é uma vitória democrática. Estávamos preparados para todos os cenários e cada um desses cenários era: como D.T. vai se virar para voltar?, como ele vai usar princípios antidemocráticos?, que medida de intimidação e trapaça dissimulada esse homem usará para abrir caminho de volta ao Salão Oval da Casa Branca? E deu que ele usou nosso sistema eleitoral do jeitinho que ele foi projetado. E naquele momento, pensei, bem, droga, não tenho certeza se temos uma equipe de advogados para isso.”

Fonte: https://youtu.be/D7cKOaBdFWo?si=Waz0bV9v5PXjOcs0&t=42

A Autora

ANA KARINA LUNA é escritora, artista plástica e oraculista. Tem formação em arquitetura & urbanismo, terapia holística e design gráfico. Viveu 17 anos em Seattle, EUA, onde trabalhou como diretora de arte, e lá, iniciou-se na arte. Tem 7 livros publicados, 4 de poemas e 3 romances (Lua Negra). Intuição e pesquisa ajudam-lhe a produzir a sua melhor escrita e é a esse processo criativo que tem devoção por vida. Pratica e estuda o Tarô e a Astrologia profundamente, assim como os cristais, os florais, as energias e as polaridades (Yin/Yang). Outras paixões: a dança, a medicina integrativa, a nutrição orgânica, a cozinha medicinal, as aplicações práticas da física quântica, da fenomenologia e da imaginação. Vive em Maceió num templo perto do céu com os pés bem assentados nos jardins da terra. Ler biografia completa →